terça-feira, 19 de junho de 2012

Diga NÃO à violência obstétrica

Esta foi a minha história! Minha denúncia ficou pronta! Audiência Pública "Violência no Parto", Assembleia Legislativa de Minas Gerais - próximo dia 1º de Agosto - 9h30 - Auditório da ALMG - DENUNCIE, PARTICIPE!

Relato de despreparo da equipe da maternidade Santa Fé – nascimento de Isabel Maia – Belo Horizonte, julho de 2010
(Por Welissa L. Saliba)

Definitivamente, o meu parto deveria mesmo ter sido domiciliar. Não que eu tivesse desejado ou planejado desta forma, mas tudo correu para que esse fosse o desfecho natural de minha gravidez, já que minha filha coroou no banheiro da minha casa. Eu, primigesta e insegura, preferi enfiar uma toalha entre as pernas para segurar o bebe, e parti para a maternidade Santa Fé, naquela madrugada do dia 7 de julho de 2010.

A partir desta minha decisão, o que poderia ter sido uma experiência sublime se transformou numa grande batalha, já que ir para a maternidade foi a mesma coisa que estar num campo de guerra! Mesmo em situação extremamente vulnerável, entrando naquela maternidade com minha bebe entre minhas pernas prestes a nascer, não tive um minuto de paz! Precisei gritar a todo o momento que não desejava qualquer intervenção, e tive que brigar muito para ter minhas vontades respeitadas!


Da hora que cheguei ao hospital até o nascimento de minha filha, foram 20 minutos de pura adrenalina. Nesse curtíssimo tempo, o médico me ofereceu analgesia umas 3 vezes, enquanto tudo o que eu precisava era do acolhimento necessário para o expulsivo. Claro que ao se depararem com uma mulher consciente de seu corpo, protagonista de seu parto, fariam de tudo para anulá-la e coagi-la a aceitar o pacote completo de Parto Normal Hospitalar que impunham. Também não deixaram meu marido assistir ao nascimento de nossa filha, uma vez que o obrigaram a preencher a papelada, que incluía o pagamento de uma taxa no valor de 15 reais para que ele pudesse adentrar o bloco cirúrgico, desrespeitando a Lei Federal 11.108/05, conhecida como Lei do Acompanhante.


Fazendo uma retrospectiva, constato que a presença da doula Isabel Cristina dos Santos fez toda a diferença para que eu conseguisse driblar o sistema ferrenho da maternidade Santa Fé, conquistando um parto sem intervenções. Com experiência e grande habilidade, ela se fez presente o tempo todo ao meu lado, expressando à equipe quais eram minhas vontades, de acordo com meu Plano de Parto.


Quando finalmente me “permitiram” parir, tive que implorar pela cadeira de parto, já que eu me preparei e desejava muito um parto de cócoras, a posição mais instintiva e natural para mim naquele momento. Não atenderam minha solicitação, queriam que eu parisse deitada de costas (litotomia), e então tentaram colocar minhas pernas nos estribos ginecológicos. Nesta hora me revoltei, me sentando na maca e cruzando os braços, para desespero da equipe que me atendia. Recusei-me veementemente a me deitar, e só assim a equipe acolheu a sugestão da doula, permitindo-me parir em decúbito lateral (deitada de lado) e abaixando as luzes extremamente fortes do bloco cirúrgico. Então fiz mais duas forças, e finalmente minha filha nasceu. Meu corpo pedia para que eu gritasse neste momento, como num golpe fulminante de karatê, e assim o fiz, no que fui duramente repreendida por uma enfermeira, que pedia para que eu me calasse.


Não esperaram o cordão umbilical parar de pulsar para que o cortassem, nem aguardaram a saída natural da placenta, numa grande demonstração de despreparo, pressa e desrespeito à natureza de uma mulher. Cortar precocemente o cordão umbilical ainda é uma prática comum nos hospitais ao redor do mundo, a despeito de inúmeros estudos científicos que comprovam os benefícios de seu corte tardio. Logo depois que minha filha nasceu senti o médico puxando minha placenta pelo cordão umbilical, forçando sua saída, o que me causou grande incomodo físico. Não tive laceração perineal e, graças aos apelos de minha doula, o medico não fez episiotomia (corte) de rotina. Assim que minha filha nasceu, a doula trouxe-a imediatamente para meus braços para que mamasse. Ela mamou vorazmente, um momento extremamente prazeroso, mas o tempo todo fomos interrompidas pela equipe da pediatria, que insistia em levar minha filha para o berçário para os cuidados de rotina, mesmo constatando que ela mamava e que estava bem.


Fui levada para a sala de observação ao lado de mais duas mulheres que haviam passado por uma cirurgia cesariana, o que foi uma grande incoerência, já que eu tive um parto natural, e não havia tomado sequer anestesia. Naquela sala fria de hospital, fui obrigada a permanecer por mais de uma hora, sem direito a acompanhante, tendo que ouvir comentários fúteis de funcionários que fingiam que não existíamos. Até esse momento minha filha continuava “plugada” em meu seio, mamando com muita vontade, mas a enfermeira insistia o tempo todo em leva-la para o berçário, afirmando que era o protocolo da maternidade, que não poderia deixa-la comigo mais nem um minuto. Eu e a doula tentamos em vão argumentar que ela estava muito bem e mamando, que aquele era o melhor lugar do mundo para a criança, mas a enfermeira forçou-nos a tirá-la do peito e infelizmente, cansada de tanta luta, cedi, deixando que a levassem por intermináveis três horas de “cuidados”. Hoje sei que os recém-nascidos recebem um tratamento extremamente invasivo e violento na maioria dos berçários do Brasil, um quadro grave que requer uma atenção especial por parte dos órgãos de direitos humanos e do poder público.


Precisamos expandir as discussões acerca da Atenção Obstétrica e Neonatal no Brasil, para que tenhamos garantidos nossos direitos fundamentais de qualidade e humanização dos serviços de saúde, e para que os profissionais desta área acolham com dignidade a mulher e o recém-nascido. Queremos partos normais respeitosos tanto para as mães quanto para os bebes, não podemos aceitar essa assistência desrespeitosa, apressada e despreparada que nos oferecem nos hospitais e maternidades do Brasil, onde a mulher e o recém-nascido passam por todo tipo de violência institucional.
O parto é um momento sagrado, que deve ser respeitado como tal, afinal, a forma como trazemos nossos bebês ao mundo reflete o tipo de sociedade que estamos vivendo hoje! Um basta à Violência Obstétrica já!

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