quinta-feira, 21 de julho de 2011

REDE CEGONHA E SOFIA FELDMAN - o que tem a ver?


O Hospital Sofia Feldman brilhou no congresso internacional de enfermagem obstétrica e neonatal, que ocorreu de 6 a 8 de julho, no Minascentro e Escola de Enfermagem da UFMG. Suas enfermeiras e enfermeiras obstetras e neonatal, seus médicos falaram nas mesas redondas, dirigiram oficinas. Mil e duzentas pessoas de todos os estados brasileiros - na sua maioria, enfermeiros obstetras e neonatal - puderam conhecer de perto a experiência inovadora deste hospital, que foi modelo para a criação da Rede Cegonha, do Ministério da Saúde. Os conferencistas ganharam um cd sobre o Sofia, onde podia se ver a Casa da Gestante Zilda Arns, onde ficam as gestantes de alto risco; a Casa de Sofias, onde ficam hospedadas as mães que tem seus filhos na maior UTI neonatal de Belo Horizonte, a creche das funcionárias (os), e o Centro de Parto Normal, que atende os partos de baixo risco, usando métodos não farmacológicos de alívio à dor e permitindo a presença da família no trabalho de parto.

Esse modelo de assistência tem atraído as mães dos planos de saúde, que migram para esse SUS eficiente. Muitas, sonham em ter partos na água. Por enquanto, há uma só banheira, mas o hospital se prepara para inaugurar em um anexo mais cinco quartos para pré-parto e parto, três deles com banheira, eles dão vista para Serra da Piedade, que pode ser observada em grandes janelas de vidro.

Esse modelo assistencial, com foco na mulher, na criança e na família foi inventado pelo Sofia. E agora, multiplica para todo o Brasil, através da Rede Cegonha, que preconiza casas de parto, casas de gestantes e um atendimento com base em evidências científicas, que fortalece o parto normal. A própria presidente se posiciona a favor do parto normal e questiona a epidemia de cesariana. Ela é uma mulher, mãe, avó. Os profissionais do Sofia - entre eles, Dr. João Batista Marinho, consultor do Ministério no Plano Nacional de Humanização do Nascimento - e as enfermeiras obstetras estão viajando ao Nordeste e a Amazônia Legal para ensinar e adaptar 26 hospitais para o modelo da Rede Cegonha. O governo federal está direcionando mais de 9 bilhões para que sejam feitas reformas e adaptações e cumpridas as metas do programa.

A Rede Cegonha pretende atrair as mulheres para um pré-natal mais eficaz - com seis consultas e promete transporte para as consultas e no momento do trabalho de parto. No congresso, muito se falou em redes e alianças. O representante do Ministério da Saúde, Dário Pasche, disse que eles nada inventaram, mas que, na criação da Rede Cegonha, se inspiraram nos melhores exemplos do Brasil.

A mulher negra amamentando um filho branco - a marca do evento - foi criada pela minha chefe e amiga, Camilla Luz, uma luz mesmo! Ela captou a mensagem da Rede Cegonha ao mostrar a miscigenação étnica do Brasil. Romero Brito, que criou a imagem do programa, também colocou uma criança com a perna negra e outra branca. A imagem ficou linda! Eu vi de perto parte da organização do congresso, porque a Camila e a enfermeira Lúcia Barreto tomavam providências práticas sobre vários assuntos de infra-estrutura.

O congresso foi considerado "um sucesso" pela enfermeira obstetra, Torcata Amorin, que presidiu o evento. As enfermeiras de Santa Catarina saíram preocupadas desse Cobeon, com a incumbência de fazer algo grandioso como foi esse congresso no próximo ano. As enfermeiras obstetras saíram fortalecidas.

ONG BEM NASCER NA ABERTURA DO CONGRESSO

Tive a oportunidade de participar meio destrambelhadamente da mesa de abertura, representando a ong Bem Nascer. Havia sido convidada e não me chamaram. Então, depois que a mesa - composta pelo Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde, Secretaria Estadual de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde, Abenfo MG e nacional, Coren, Cofen, Jica-Agência de Cooperação do Japão - se dispersou, fui chamada. Sou meio palhaça nessa hora e declarei: - esqueceram de mim, então, me chamaram agora. Mas no discurso disse do início da ong, que ela foi criada por mim e por duas enfermeiras obstetras - Sibylle Vogt e Nelcy Muller e por dois médicos - Dr. João Batista Marinho e Dr. Marco Aurélio Valadares. E que eu representava a mulher "entre aspas" da elite, a mulher do plano de saúde. Nosso objetivo é atingir a sociedade num todo, mas principalmente aquelas mulheres que optam pela cesárea por falta de informação. Disse que milito há 30 anos e pela primeira vez fico feliz de ver o Ministério como parceiro nosso...
E no outro dia, participei de uma mesa redonda sobre a continuidade do cuidado ao recém nascido e a autonomização da mulher, ao lado da parteira holandesa, que mora em Portugal, Mary Zwart, uma querida! Ruth Hitomi Osava e Raquel Tamez, que é brasileira, mas trabalha em UTI neonatal nos Estados Unidos. Depois das três médicas, apresentei a ong, um discurso de mulher, de mãe. Comecei lá atrás, no parto de cócoras, falei das evidências científicas, do incentivo à presença do pai ao lado da mãe, à amamentação, ao uso do sling, ao empoderamento da mulher. Falei da nossa missão maior, disseminar para todos a cultura do parto normal. Formar uma rede de profissionais afins - enfermeiras obstetras, médicos obstetras, psicólogos, professores etc. Fortalecer essa rede para atender, assim, às mulheres que demandam por um atendimento mais humanizado.

CONTRIBUIÇÃO DO SOFIA
Profissionais do Sofia falaram sobre aleitamento, evidências científicas, parto domiciliar, UTI neonatal, a formação dos enfermeiros - contribuindo muito para a discussão. Mais de 320 dos participantes conseguiram ir ao Sofia fazer visita técnica. Digo conseguiram, porque muitos encontraram os carros lotados.

Dr. Ivo foi homenageado e disse que quem leva o andor é a enfermagem. O Sofia é parceiro da Escola de Enfermagem da UFMG, nas residências. Lá, os novos enfermeiros aprendem a atender com amor, cuidado, respeito à mulher, ao companheiro, à criança, ao cidadão.
Esclarecendo, a imprensa sempre se equivoca, o Sofia não é um hospital do estado de Minas, não é da prefeitura; o Sofia Feldman é uma entidade privada com fins filantrópicos.Tem como princípio o amor à humanidade, que se transforma em gestos e ações humanitárias. No comecinho do Sofia, era vinculado à Sociedade São Vicente de Paula.
Dr. Ivo trabalha com o conceito de "portas abertas" e atende a 1/3 dos partos em Belo Horizonte, cerca de 850 por mês. Tem os melhores índices de mortalidade materna e infantil e de cesarianas da rede SUS.

Para os funcionários, o Sofia é uma mãe. Oferece academia para os funcionários, montada com os aparelhos e onde tem também dança. Quem tem 70% de participação na academia, ganha o almoço ou o lanche - com suco, salada de frutas e pão. O almoço não é tapeação, eu sou naturalista há anos e tenho passado bem lá. Tem arroz integral, bolinho de soja, peixe toda semana, azeite à vontade e até um cálice de vinho. Na sobremesa, tem sempre um pedacinho de rapadura. É realmente nutritivo. E ali comem juntos as mães, os pais, os médicos, as enfermeiras, os faxineiros, todos juntos.
Agora estou lá, sou mais um deles e estou muito orgulhosa. Penso diariamente em melhorar a imagem do Sofia, porque por um ou outro problema, a imprensa faz alarde e traça um perfil incorreto do hospital. Enquanto isso, toda a equipe se esmera em melhorar o atendimento, em gerar conhecimento, em acolher a mulher do SUS com dignidade.
Dr. Ivo é um ousado idealista. Ele dorme às 7h da noite e vai para o hospital às 3/4 horas da manhã, quer supervisionar o movimento noturno. Com aqueles cabelos brancos e um andar meio desengonçado olha tudo e está em todos os lugares. Lá dentro do hospital, também estão os moradores do bairro Tupi, trabalhando como voluntários, ou exercendo o que eles chamam de controle social, a presença da comunidade dentro do hospital.
O que tem a ver a Rede Cegonha com o Hospital Sofia Feldman?
Tudo a ver.

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