sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CONHEÇA UM POUCO A HISTÓRIA DA CESARIANA


Encontrei no livro "Humanizando nascimentos e partos", organizado pela obstetra Daphne Rauttner (da Rede pela Humanização do Nascimento/REHUNA) e a psicóloga Belkis Trench. O prefácio é muito interessante, escrito pelo escritor Moacyr Scliar, médico especialista em saúde pública. Os títulos internos e os grifos são meus.
Transcrevo:

"em meio a dores darás a luz"
Gênesis 3,16

A determinação divina, castigo pelo pecado original condicionou, na cultura ocidental, uma verdadeira tradição segundo o qual o parto é o momento de expiação da culpa, o que só pode ser feito mediante sofrimento. Aquilo que, no reino animal, é um ato fisiológico não muito diferente dos outros atos fisiológicos, ficou assim carregado de simbolismo e de aflição.
Simbolismo e aflição que tinham contrapartida nas dificuldades reais que muitas vezes estão associadas ao parto, resultantes das características anatômicas da espécie humana. Não é de estranhar, pois, que aos poucos o parto se tenha tornado um procedimento médico. Nessa trajetória, a cesárea foi um momento decisivo.
História da Cesárea
Numerosas lendas e muitos mitos envolvem o surgimento da cesárea: na mitologia grega, Apolo removeu Asclépio (significativamente, o fundador e um famoso culto médico) do abdome da sua mãe. O termo é habitualmente associado ao nascimento do imperador romano Júlio César, o que parece pouco provável, visto que sua mãe, Aurélia, teve uma vida relativamente longa e à época a intervenção era praticada como medida de último recurso, só em parturientes mortas ou em agonia. Também é possível que a expressão venha do verbo caedare, cortar. De qualquer modo, não era uma prática exclusivamente romana - numerosas referências a ela aparecem nas culturas egípcia, hindu e chinesa.
Com a incorporação do parto à prática médica, mudou também o cenário em que era realizado. Nas culturas ditas primitivas, não era raro que uma camponesa interrompesse o seu trabalho de campo para, ali mesmo, dar à lua, ajudada por outras mulheres e, quem sabe, invocando uma das muitas deusas protetoras das gestantes (no Museu de Antropologia da Cidade do México, existem várias esculturas dessas deusas, que têm inclusive papel didático: estão de cócoras, a posição mais adequada para o parto natural). Mas a Medicina introduz o hospital, com cada vez mais recursos. Certamente, o parto hospitalar salvou muitas e muitas vidas. Mas também é verdade que facilitou a realização do parto cirúrgico, o que, no Brasil acabou se traduzindo em números impressionantes. Em certos municípios do estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, cerca de quarto quintos dos partos ocorriam por cesárea. Criou-se um verdadeiro clima cultural, que envolve as próprias gestantes e que se traduz na cesárea ´a pedido`, comum principalmente entre as mulheres com alto nível de escolaridade.
FICOU CARO PARA O SUS
Dentre outros problemas, este acarreta uma sobrecarga de gastos para o Sistema Único de Saúde (SUS), o grande provedor de serviços de saúde em nosso país; o Ministério da Saúde teve de definir um teto porcentual decrescente para o pagamento de cesáreas aos hospitais, iniciativa que contribuiu para estabilizar ou reduzir as taxas nos serviços do SUS e conveniados, enquanto nos serviços privados tais taxas continuaram aumentando. Por outro lado, são preocupantes, no país, as altas cifras de mortalidade materna.
Tal situação não é, claro, exclusiva do Brasil. Ela levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a formular uma declaração em 1998, preconizando "o mínimo possível de intervenção que seja compatível com a segurança (...). No parto normal deve haver uma razão válida para interferir sobre o processo natural". Essa recomendação não leva em conta somente a evidência científica, mas considera também os direitos das mulheres à informação e à decisão em questões de saúde-doença.
O termo "humanizar" sintetiza todas essas postulações. É uma reivindicação das mulheres, no caso do parto, mas é também uma reivindicação dos setores mais avançados da área da saúde, preocupados com o crescente desequilíbrio entre a tecnologia e relação médico-paciente. De fato, a expressão "humanização da medicina" vem ganhando relevo nos últimos anos e, aos poucos, escolas médicas estão incluindo no currículo da disciplina conhecida como Humanidades Médicas, que tem por objetivo recuperar os aspectos humanísticos da profissão.
A humanização do parto carrega componente emocional importante. Injunção bíblica à parte, o parto é um grande momento na vida da mulher e da familia, e nada impede que seja também uma experiência gratificante. Não se trata exclusivamente de evitar a dor e o desconforto da parturiente; trata-se do apoio proporcionado pela equipe de atendimento, por familiares, por amigos e amigas. ..

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